(Joana à esquerda)Meu amor, há quase uma década que saíste da casa de tua mãe, contudo a ferida provocada pelo vazio que deixaste teima em não cicatrizar. Isto se alguma vez cicatrizar…
Desde o dia em que partiste que deixei de ser “una” porque metade do meu ser morreu nesse fim de tarde do mês de Junho. O meu coração esteve quase a fechar-se para o mundo não fora a existência da tua irmã.
Só te posso dizer que sinto imensas saudades tuas, porque é impossível quantificar o tamanho da minha dor, que não é física.
No entanto tu evitas-me!
Fizeste-te mulher
Raramente nos vemos e sempre que falamos ao telefone tentamos ser breves e formais, para não dizermos uma à outra, frases (que resultam em acusações mútuas) das quais mais tarde, arrependemo-nos sempre. Por isso tenho aceitado o silêncio como prova do meu amor.
Quem dera saber o que se passa no teu coração! Quem sou eu para ti? Uma estranha? Uma inimiga? Às vezes sou assaltada por esta dúvida, que aos poucos vai invadindo e destruindo o meu cérebro, o meu coração, contagiando o meu sangue…
Ainda num passado recente deitavas a cabeça no meu regaço e confidenciavas-me as tuas alegrias e tristezas. Eu afagava-te os cabelos, acalmava os teus ímpetos de adolescente. Sentia-me a mãe mais feliz do universo.
Frequentemente imagino-te a meu lado. Sinto a tua presença oiço as tuas estrondosas gargalhadas e por breves segundos o interior da casa volta a ter vida.
Acordo suavemente deste sonho. Parece-me ouvir ao longe a tua voz…
Sei que estás bem, o que me deixa mais tranquila.
Provavelmente já te esqueceste dos momentos que passamos as três, (dos bons e dos menos bons)… sabes, quando me refugio no meu mundo, vem-me à memória as inúmeras histórias contadas na tua “língua de trapos”. Lembras-te de quando assinaste uma revista em meu nome para adoptarmos uma criança da Bósnia? E o teu amigo Flávio que queria à viva força ir viver connosco porque não tinha um lar? E os animais abandonados que escondias no sótão da nossa casa, e, que carinhosamente cuidavas? O teu lado altruísta falava sempre mais alto.
Minha querida são estas lembranças que me fazem sentir viva.
Cresceste! Pediste-me para deixar de comprar as revistas que coleccionavas com as fotos do teu ídolo – Jon Bon Jovi.
Os meus beijos, as minhas carícias começaram só a ser aceites longe dos olhares dos teus amigos, o meu colo continua disponível para ti. Sempre!..
És feliz com o caminho que decidiste trilhar. Talvez em determinado momento eu tenha sido uma espécie de barreira na tua vida. Ou quem sabe se o facto de te amar tanto, de te querer tanto e ter tanto medo de te perder, ocupei indevidamente o teu espaço. O espaço que só a ti pertence e que estava destinado ao teu crescimento como pessoa?!
Apesar de hoje seres uma senhora enfermeira continuas a crescer, porque é inerente ao ser humano. “Aprender até morrer” – diz o povo.
Sei que vais desempenhar bem as tuas funções, porque estás a fazer exactamente aquilo que queres, e porque ajudar os outros está-te no sangue.
Feliz aniversário meu amor.
Da tua mãe




