Sábado, 13 de Novembro de 2010

Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso


Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

29 comentários:

  1. Nunca chegamos ao fundo da nossa solidão ...

    Abraço.

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  2. Olá Carmo

    A solidão "alimentada" com recordações...

    Bjs.

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  3. No mundo desconhecido das nossas (in)definições há sempre um mas, qualquer coisa que nos escapa, que nos ultrapassa... E, de visível, apenas fica a voz do poeta.

    beijo :)

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  4. Antecipou-me a rota de Moçambique
    esse "caminho do meu navegar"
    onde encontrarei este poeta
    mesmo que o não veja
    leio-lhe os poemas
    e prometo repetir este
    que é lindo...

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  5. É um dos poemas mais bonitos de Mia Couto!
    A solidão torna-se "mais só" com o cair da noite envolta no silêncio que abre os seus panos escuros...Como entendê-la? Só mesmo nos versos de um poeta que tem a dimensão de um país.
    Beijo e bom Domingo.
    Graça

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  6. A noite e os seus panos escuros tecendo a solidão.
    A beleza das palavras de Mia Couto.
    Poema para ler e reler tentando navegar no tempo, na saudade e nos espelhos onde nos retratamos.

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  7. Carmo

    Minha amiga

    Obrigada pelo Mimo.
    Nesta altura faz bem sentir um carinho.

    Um beijinho

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  8. Claro que gosto o Mia Couto, mas o comentário vai para o Jacques Brel.
    Este "Ne me quittes pas" é para mim a melhor interpretação de todos os tempos de um cantor ! Visto, sente-se e vê-se o sentimento que ele imprime a cada palavra ! É tudo profundamente sentido por era real e ainda muito presente.

    Um beijo Carmo !

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  9. Olá Carmo

    Sempre tive curiosidade de ler Mia Couto

    Vai ser desta:)

    boa semana.
    beijinhos

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  10. Passei para de deixar um beijo e desejar boa semana.
    Graça

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  11. É sempre um momento único e lindo ler Mia Couto, um momento profundo e que nos transmite a dimensão exacta dos sentimentos.

    Deixo beijinhos e votos de boa semana.
    Branca

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  12. Carmo!

    Como sempre Belíssimo...
    Especial...só o poeta pode tem esse talanto.
    Boa semana.
    Bjs.

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  13. Tão bom entrar aqui e ouvir a voz do Mia num dos seus poemas mais belos...

    Beijinho e boa semana :)

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  14. Mia Couto! Palavras para quê?

    Foi bom ter partilhado estes momentos contigo!


    Beijos...
    AL

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  15. Olá, boa noite!

    Passei para a habitual leitura...

    mas fico a ouvir Jacques Brel...

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  16. O verdadeiro amor não se conhece por aquilo que exige, mas por aquilo que oferece.
    Bjs com carinho

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  17. Carmo vim ler-te e agradecer as tuas visitas. Este poema de Mia Couto é lindíssimo. Sempre gostei da solidão que traz a noite, daquele silêncio e daquela paz, faz-me criar. Pena que não possa usufruir completamente do que ela nos proporciona. É essencial, para mim dormir e quem trabalha não se pode dar ao luxo de estar noite dentro. Beijinhos

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  18. 'Solidão:
    Onde as paredes esmagam,
    e as sombras são o destino;
    o canto dos pássaros silêncios,
    e os silêncios são gritos!
    E eu... sim, quem sou eu nesta agonia?
    Apenas... um rio sem nascente, na margem da vida,
    um barco no deserto, em busca de ti!'

    Mais solidão... não!
    Lindo este texto de Mia Couto.
    Beijo de muito carinho, Carmo.
    Carlos

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  19. *
    adoro Mia Couto,
    ,
    Velho, não.
    Entardecido, talvez.
    Antigo, sim.
    Me tornei antigo
    porque a vida,
    tantas vezes, se demorou.
    E eu a esperei
    como um rio aguarda a cheia.
    ,
    in-Mia Couto
    ,
    conchinhas,
    ,
    *

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  20. ...simplesmente grato pela apartilha!

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  21. A solidão nos traz inspirações perfeitas!

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  22. bom ler Mia.
    obrigada
    brisas doces para ti*

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  23. As palavras de Mia Couto são a companhia da solidão. É poesia que nos preenche e aconchega!


    Bela escolha!
    Beijinho

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  24. Mil portas abrem a solidão, é uma hospede que não quer ir embora, beijinhos Carmo. Boa semana.

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  25. CARMO
    Feliz também por te ver no meu canto...
    o meu livro
    Caminhei... Caminhando...

    é um pouco de mim vou caminhando com muitas pedras no caminho mas eu consigo saber rir quando dói...e vou caminhando com a certeza que o faço por mim sem atropelar ninguem e assim o caminho torna-se mais leve...


    Um beijo

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  26. Carmo,
    Escolheu lindamente. Há tanto em Mia Couto...!

    Beijo :)

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  27. É muito bom,

    sim senhor!

    Estive também a ver a dança!

    É de excelência!

    Beijinhosss

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